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Terça, 08 Novembro 2016 00:00

Ser Humano e Vida Natural - 1

Escrito por Miguel Buck - Diretor da Trilharte

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“A fotografia no cotidiano é também um modo de podermos ver e refletir em como estamos olhando o mundo e nossa relação com pessoas e coisas.” Essa afirmação não é um fato, mas um desafio. É também a aposta que fazemos. … Me pergunto, por exemplo, sobre como seria e o que seria fotografar a natureza hoje, quer dizer, num mundo onde os problemas ambientais só fazem crescer. Você pode pensar: “As pessoas continuam tirando fotos da natureza mesmo assim!” Certo, mas será que a forma de fazer fotografia mais comum leva as pessoas em geral a refletir e fazer refletir sobre como temos olhado a natureza, a sociedade, o outro, nós mesmos? Será que as fotografias são tiradas com a consciência do olhar que queremos imprimir na foto? Com que olhar você quer fotografar as áreas preservadas? E as degradadas?

Nesta série de postagens, vou falar de minhas reflexões sobre nós seres humanos em nossas relações com a vida natural. Nossas “ações” se desdobram em consequências que exigem novas “ações”. Convido vocês a refletir sobre o quanto somos livres das visões que já temos sobre as coisas e o que poderíamos promover para a recuperação dos ambientes naturais. Vou torcer para que seja uma boa leitura rumo às profundezas de nossa própria natureza! Vamos juntos!

 MBC7128Comumente ouvimos falar dos problemas decorrentes das desigualdades sociais, a desesperada rotina de quem mora a cinco ou mais horas do trabalho e o sonho de morar mais perto. A ocupação de espaços naturais por condomínios e também por comunidades improvisadas, ambos carentes de estruturas para o auxílio a um funcionamento menos nocivo à vida natural e também à própria qualidade de vida dos moradores. A insatisfação, os desastres ecológicos, violência, abusos pessoais, interpessoais e sociais, esses e outros resultados com suas inúmeras nuanças estão presentes nas notícias que nos atingem cotidianamente.

 MBC0424 6Começamos a olhar o cenário a partir do segundo degrau da escada, que segue se multiplicando a partir dos anteriores, gerando uma cadeia crescente de consequentes “soluções” que causam mais problemas.

Nesse degrau de consequências na escada rumo à busca de soluções, estamos estabelecidos em áreas outrora ocupadas por biomas¹ naturais com outras histórias de causas e consequências que geraram um relativo equilíbrio.

 MBC8674Digo relativo porque, se refletirmos profundamente sobre a vida, chegaremos a uma conclusão, que ela se origina e se sustenta do desequilíbrio. Não se espante, achando que deve ser um engano, pois sempre ouvimos sobre o “equilíbrio natural”. Esse equilíbrio é uma metáfora! Dizemos equilíbrio, porque há sustento para aquelas formas de vida, que geram as características dos diferentes biomas. Mas todas essas formas de vida também estão na mesma busca, subindo outras escadas de consequências, buscando soluções para as dificuldades de suas existências. Numa visão transcendente, somos todos iguais!

 MBC0536 57O que outrora fora um paraíso natural, foi explorado e transformado, e hoje é um inesperado palco, onde os sonhos se realizam parcialmente e geram os desdobramentos, fruto de ações que perfazem uma satisfação apenas transitória e, quase sempre, geram consequências indesejáveis. Assim acabamos com as florestas, as lagoas, todos os biomas originais. Com eles, se foram a maior parte das espécies que os compunham. Mas nem todos pereceram. Alguns poucos, os “heróis da resiliência²”, permaneceram e uns menos ainda, como os mosquitos, se “beneficiaram” das mudanças.

 MBC8769Sabemos das discussões em redes sociais e em muitas reportagens de jornais que falam do problema com o mosquito Aedes aegypt e outra espécie mais comum, o Culex quinquefaciatus. Esse último é aquele que tira nosso sono na madrugada.

Hoje na Lagoa das Taxas, no Parque Municipal Chico Mendes, Recreio dos Bandeirantes, existe uma retroescavadeira adaptada em uma pequena plataforma flutuante com rodas de moinhos d’água. Outra bem maior, de esteiras de aço forjado, fica à margem retirando da água centenas de quilos diários das importadas gigogas. A gigoga ou aguapé, é originária da América Central e Amazônia. Uma planta  MBC8800extremamente prolífica, quando habita águas ricas em matéria orgânica. Nesse cenário, as águas ricas em “nutrientes” mantêm-nas em constante crescimento populacional. Com tantas gigogas a lagoa sofre transformações desastrosas para a maior parte das espécies naturais dali. A primeira coisa que acontece é o bloqueio da luz solar e desaparecimento das algas benéficas, que solubilizavam o oxigênio nas águas calmas da lagoa. Por sufocamento, peixes, crustáceos, moluscos, anfíbios, ... , morrem e não aparecem mais. Mas os mosquitos, esses se proliferam assim como a gigoga.

 MBC8727Agora, será que a gigoga é a vilã? Ela foi trazida de seus ambientes naturais para cá. Possivelmente, alguém sabendo da utilidade da gigoga em extrair poluentes da água, teve boas intenções e colocou uma mudinha na lagoa. É que a Lagoa das Taxas, assim como todas as que escaparam do aterramento, recebem toneladas de esgoto in natura diariamente. Esgoto que vem de nossas cozinhas, áreas de serviço, banheiros, nossas ruas, os esgotos pluviais e  MBE5985sanitários. Então, pode ter sido esse o motivo da introdução da gigoga naquele ambiente. Só que o benfeitor não esperava que de sua ação surgisse outros problemas tão ou mais graves que aquele que se pretendia remediar. Nas águas poluídas predominantemente por matéria orgânica dos esgotos, o mosquito Culex quinquefaciatus se reproduz, já na água limpa da chuva e da transpiração das gigogas, que se acumulam nas bainhas das suas folhas, o Aedes aegypt põe seus ovos, fazendo dali seu berçário. O Culex, sem seus predadores naturais, alcança números nunca vistos nas lagoas pré-devastação, assim como o Aedes, que além de fazer escala, atuando durante o dia, transmite doenças entre as pessoas.

Jacaré Recreio 1

 

 

 

Será que soluções mais perenes e sem consequências ainda mais nocivas são possíveis sem que mudemos nossa visão sobre a natureza, a sociedade e nós mesmos? Como já disse, aposto muito na fotografia para encontrarmos com a natureza e com nós mesmos de uma forma reflexiva, estética e, sobretudo, divertida!

Continuamos na próxima terça-feira! Até mais! :)

Miguel Buck – Diretor da Trilharte

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¹ Bioma designa uma área geográfica onde são encontradas uma flora, fauna e condições físicas e climáticas, específicas. O termo Bioma foi cunhado pelo biólogo norte-americano Frederic Edward Clements no ano de 1943. Para Clements um bioma era uma região geográfica onde se encontram certos tipos de plantas e animais influenciados pelas mesmas condições de clima, solo, altitude e etc.

² Resiliência: habilidade para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas.

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